Sem título

Olho para as coisas e a poesia já lá está. Não me sinto capaz de certas arrogâncias: acreditar que o poema surgiu devido a uma combustão espontânea que se deu quando olhei a árvore, cheirei a flor, senti a textura da terra entre os dedos, ouvi os pássaros, ou provei o fruto. Não. O poema não surgiu em virtude de mim. Já lá estava. Era anterior à minha percepção. Eu apenas o extraí – como alguém extrai uma farpa de madeira cravada na carne.

Não fui eu quem fez a poesia: é a poesia que nos faz.

Futurologia

Passar
os dias tentando
adivinhar
o calibre certo da pistola
que me há-de
matar

Literatura

Disseram-me, no outro dia, que os poetas

falam muito dos desgostos de amor

Não respondi

mas devia

ter dito que sem desgostos 

– de amor ou não –

não haveria literatura.

Se é felicidade que procuras

lê livros de auto-ajuda

conta mentiras ao espelho

até que ele te repita verdades.

Ou abre uma garrafa de vinho

saboreia o travo amargo e aguarda que as palavras

te cheguem à boca. 

Verás: a literatura é tudo o que

não conseguimos digerir

Língua

labareda
dançante

que queima
na mesma proporção
que arrepia

Entre a carne e a poesia (há o osso)

Celestino era talhante nos dias úteis e poeta nos fins-de-semana. Depois de uma semana a esquartejar carcaças, chegou a casa, lavou bem as mãos, garantiu não ter sangue nenhum debaixo das unhas, pegou na caneta – como se pegasse num cutelo – e apontou no papel aquilo que lhe pareceu uma boa conclusão para um poema:

Cuidado
Sei manejar objectos cortantes

O inimigo invisível

Eram tempos macabros

e os clássicos não nos haviam preparado para tal guerra

o inimigo invisível subira os muros

obrigara-nos à clausura

desertificara cidades

separara amantes

potenciara a solidão

matara entes queridos

depois dele, nunca mais a realidade seria a mesma:

começaram a temer-se as coisas invisíveis

os olhos cresceram – tornaram-se microscópios – a

evolução tomara conta da espécie

as pessoas do mundo, todas as pessoas do mundo,

começaram a ver o que outrora não conseguiam:

todos os que em tempos pareciam invisíveis, tudo o

que em tempos parecia invisível

e as pessoas do mundo, todas as pessoas do mundo,

viram que há finas partes de matéria, fios, que nos unem 

uns aos outros, que nos tornam dependentes uns dos 

outros, e tão iguais uns aos outros

todas as vidas importam

foi isso que as pessoas do mundo, todas as pessoas do mundo, 

viram

Contos infantis em tempo de pandemia

Ao Rui Rocha

cada um na sua casa
seguindo as recomendações
da DGS
os Três Porquinhos
olhavam a rua
das respectivas janelas

não tardou muito
até que a GNR
fosse contactada:
havia um Lobo Mau
a furar a quarentena

Contos infantis em tempo de pandemia

quando disseram a Alice
que nos dias de hoje
quanto maior
a distância maior
o amor
ela julgou estar
do lado
errado
do espelho

Contos infantis em tempo de pandemia

Desta vez, o espelho
disse à Bruxa Má
que a beleza física
é uma característica sobrevalorizada
evitando assim uma série
de eventos catastróficos que
levariam a Branca de
Neve aos cuidados intensivos

Polígrafo

quanto mais

me mentes

mais eu gosto

de

ti