744

A senhora entrou na paragem do 744, no Saldanha. Vinha curvada, como se o tempo a empurrasse para baixo e não a deixasse andar com as costas direitas. Devia ter perto de oitenta anos. Eu estava sentado a ler. Ia na página vinte e três d’O Estrangeiro (de Camus). A senhora parou ao meu lado, agarrada ao ferro. Levantei os olhos, marquei a página com o indicador e fechei o livro.

Sente-se aqui.

Não é preciso, o menino está a ler.

Não, não. Sente-se. Eu tenho tempo para ler.

Levantei-me, ela sentou-se. 

Muito obrigado, menino.

Condescendi com a cabeça e um sorriso. A senhora sorriu-me de volta. 

Quando saí do 744, na paragem junto ao Estádio 1º de Maio, fiquei a pensar se devia ter dito aquilo àquela senhora de quase oitenta anos: “tenho tempo”.

783

Um senhor ajuda uma senhora a subir o degrau do autocarro. Devem ter ambos mais de setenta anos. O senhor traz vestido um fato de flanela e uma boina na cabeça. A senhora, além da bengala, carrega um saco de plástico cheio de coisas que lhe deviam faltar em casa.

Primeiro o pé direito. – disse ele, enquanto ela, com o medo próprio da idade se debatia com o equilíbrio – Faça força. Eu não a deixo cair. 

Muito obrigado.

Tem o passe? Vá sentar-se. Primeiro o pé direito, o esquerdo é só para ajudar.

Muito obrigado.

Isto quando a gente chega a velhos temos de aprender outra vez a andar.

E quando ouvires a tempestade lá fora lembra-te de mim:

de como ergueste

as paredes e fechaste

as janelas que nos separam

Estação de Metro de São Sebastião, 8:37

Filas de glúteos subindo os degraus, um a um, de forma ordeira. Uma luta terrível contra o tempo, contra o tecido das roupas, contra a meteorologia das massas frias e húmidas, contra o betão sufocante, contra as correntes que esticam até onde devem esticar. Os rostos pesados, cansados, cinzelados pelo desmazelo da terrível morte quotidiana. Os rostos fechados que gritam o desespero dos animais domesticados, julgando-se livres – tontos – na selva urbana. 

TU

Quis escrever um poema

onde coubessem os teus olhos,

a tua boca, os teus braços,

as tuas pernas,

mas não consegui.

És demasiado grande para espaços

fechados – e as palavras demasiado

pequenas.

Depois olhei a rua da janela, o sol,

as gaivotas com restos de mar nas suas penas.

E imaginei todos os cantos do teu corpo

onde sonhei fazer poemas.

Pousei a caneta e percebi: nenhum horizonte

cabe nas margens do papel.

E o poema encurtou,

até caber no meu peito:

TU

A Natureza

A Natureza faz o seu trabalho:

encarrega-se

de crescer

e ocupar

Objectivo de vida

Ser feito um rio:
nascer
num fio

e avançar

até ser
mar

Mulher-Flor

Comecemos pela flor: uma estrutura frágil, de pétalas amarelas.

A flor cresceu entre as pedras da calçada. Desenvolveu-se, entre o solo inóspito, e os pesadíssimos blocos calcários. Uma incongruência. Uma vitória da natureza sobre a civilização.

A Mulher regava a flor. Olhava-a diariamente, falava-lhe, esperava que ninguém a pisasse ou arrancasse. Era um acto de fé.

*

A flor crescia, todos os dias, mais um pouco.

As pessoas, no bairro, ignoravam-na. Era uma coisa insignificante, rasteira; erguida do chão, mas não o suficiente para lhes causar uma impressão.

Para a Mulher, aquela flor era uma forma de o mundo dizer que o que é belo e frágil pode encontrar um caminho entre as pedras e prosperar.

A Mulher apontou: flor = resiliência. Sorriu.

*

Foi num dia igual a qualquer outro dia que a flor cresceu tanto que as pessoas começaram a reparar nela: começaram a dar-lhe atenção. A flor tinha mais de um metro de altura e as suas pétalas criavam uma coroa amarela – tão amarela como o próprio sol. 

Os transeuntes desviavam-se dela.

Ninguém lhe ficava indiferente. Nem as pedras, que agora se erguiam, cedendo à força exercida pelas longas e robustas raízes. 

O tempo passava e a flor prosperava.

A Mulher regava-a e sorria, feliz. Toda ela brilhava. 

A Mulher e a flor eram apenas uma.

A Mulher e a flor nunca cederam aos caprichos sociais, à transparência, às pedras no caminho.

A Mulher e a flor são apenas uma. 

A Mulher-Flor continua a prosperar. 

Uma definição: Mulher = Flor = Resiliência. 


A História do Homem-Bom

Em certa medida o tempo é apenas uma percepção que temos. Um dia é um conjunto de horas; assim como é um conjunto de minutos, ou de segundos. Uma vida pode, então, definir-se num segundo: uma acção; uma vida pode também definir-se num bloco temporal maior: não apenas na pequena parte, no segundo, mas nos restantes dias, ou anos, dessa vida.

O Homem-Bom está no chão. Não se mexe.

Tem o braço esquerdo estendido, tangente à orelha esquerda. O braço direito afaga o ventre, que sangra. As pernas estão numa posição estranha: parecem as pernas de um corredor; a diferença: estão paradas. São a imagem das pernas de alguém que corre. 

*

O Homem-Bom foi bom a vida toda. 

Mentira: o Homem-Bom foi bom a vida quase toda. 

O Homem-Bom deixou de ser bom num segundo. Antes desse segundo, o Homem foi sempre bom.

Toda a gente no bairro o conhecia.

Era o Homem-Bom que ajudava as senhoras a carregar os sacos até suas casas. Diziam, no bairro, que o coração do homem era o maior coração do mundo: um elemento anatómico de proporções sobre-humanas, um músculo muito capaz, não só de bombear sangue, mas de albergar largas quantidades de amor pela humanidade. 

Não havia uma pessoa que o Homem-Bom não cumprimentasse. Mesmo quando estas o olhavam desconfiadas, em silêncio, numa atitude muito citadina, muito embrenhada na solidão característica de quem vive as suas vidas dentro de caixas de betão. Ele – o Homem – não se preocupava com essa indiferença. 

O Homem-Bom usava um chapéu preto na cabeça e sempre que cumprimentava as pessoas tirava o chapéu com a mão direita e alongava o braço, como se pedisse esmola. Mas o Homem não queria dinheiro. O Homem queria nada. Aquele era um gesto de cortesia; uma forma de respeitar o próximo. 

Conclusão: estender o chapéu é um acto de bondade.

*

Foi num dia como qualquer outro que o Homem-Bom passou pelo Homem-que-pedia-esmola-numa-cadeira-de-rodas. 

Descrição do sujeito: homem de tez morena, sentado numa cadeira de rodas, aparentemente com as pernas amputadas pelos joelhos. Olhos negros, baços. Um sinal de proporções significativas na testa (imediatamente acima da sobrancelha esquerda). A cadeira de rodas tem um chapéu de sol azul anexado, do lado direito. Tem as unhas da mão direita, estendida em concha, encardidas. 

O Homem-que-pedia-esmola-numa-cadeira-de-rodas chamou o Homem-Bom

amigo! amigo! amigo! – três vezes o chamou. 

Três vezes o Homem o ouviu e três vezes o ignorou; baixou a cabeça, com vergonha.

Novamente ouviu

amigo! amigo! amigo!

Ignorou. Subiu as escadas. Andou uns metros e então sentiu o frio do metal a entrar pelo ventre. 

O Homem-Bom tombou. 

O Homem-que-pedia-esmola-numa-cadeira-de-rodas apanhou o chapéu preto do chão e começou a correr. As pernas do Homem-Bom  queriam correr com o outro, mas ficaram paradas.

O Homem-Bom foi bom a vida toda.

O Homem-Bom foi bom a vida quase toda. 

O Homem-Bom não o foi uma vez.

Conclusão: o erro define o Homem.