Este livro vai mudar a tua vida

Sinceramente? Irritam-me aquelas pessoas que alegam o meu livro vai mudar a tua vida. Um livro muda nada. Contra mim falo. Um livro é um terreno fértil; um terreno com possibilidade de cultivo. As palavras podem funcionar como ignição, mas nunca serão o movimento. Ler a palavra fazer e fazer, de facto, são coisas muito diferentes. Imaginemos um punhado de sementes: se não as cultivarmos, e regarmos e deixarmos o tempo actuar, serão apenas sementes. Um livro pode ser uma semente, mas nunca será a planta, o produto final. Ler um livro, ver um filme, olhar longamente um quadro, muda nada. Poderá ser a ignição, mas nunca o fogo. Fundamentalmente, a arte é (deve ser), realmente, a faísca. O resto cabe a cada um. É um exercício interior e posterior à percepção. Penso nisto, também, – e noutra forma – como penso na minha camisa amarela: adoro o amarelo, mas não é a minha cor favorita; nem a que se enquadra melhor no meu tom de pele: um livro pode ser inconsequente, também, porque não o percebi, ou não me fascinou. Essa alegação de vai mudar a tua vida é apenas uma forma capciosa de enganar o leitor: uma aranha a atrair a mosca para a sua teia. 

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