A História do Homem-Bom (3)

Foi num dia como qualquer outro que o Homem-Bom passou pelo Homem-que-pedia-esmola-numa-cadeira-de-rodas. 

Descrição do sujeito: homem de tez morena, sentado numa cadeira de rodas, aparentemente com as pernas amputadas pelos joelhos. Olhos negros, baços. Um sinal de proporções significativas na testa (imediatamente acima da sobrancelha esquerda). A cadeira de rodas tem um chapéu de sol azul anexado, do lado direito. Tem as unhas da mão direita, estendida em concha, encardidas. 

O Homem-que-pedia-esmola-numa-cadeira-de-rodas chamou o Homem-Bom

amigo! amigo! amigo! – três vezes o chamou. 

Três vezes o Homem o ouviu e três vezes o ignorou; baixou a cabeça, com vergonha.

Novamente ouviu

amigo! amigo! amigo!

Ignorou. Subiu as escadas. Andou uns metros e então sentiu o frio do metal a entrar pelo ventre. 

O Homem-Bom tombou. 

O Homem-que-pedia-esmola-numa-cadeira-de-rodas apanhou o chapéu preto do chão e começou a correr. As pernas do Homem-Bom  queriam correr com o outro, mas ficaram paradas.

O Homem-Bom foi bom a vida toda.

O Homem-Bom foi bom a vida quase toda. 

O Homem-Bom não o foi uma vez.

Conclusão: o erro define o Homem. 

Deixe uma resposta