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Penélope deixa um bilhete a Ulisses à porta de casa

Quando chegares, descalça-te e desinfecta as mãos.
Sabem os deuses por onde andaste.

Contos infantis em tempo de pandemia

impedida de ir ao baile
a Cinderela
vestiu o fato de treino
abriu uma boa
garrafa de vinho
e bebeu-a
sozinha
num copo de cristal

Contos infantis em tempo de pandemia

Internada numa unidade
de cuidados intensivos
a Bela Adormecida
sonhava com a
chegada do príncipe
vestido de branco

Ao acordar do
coma induzido – dias
depois – não sentiu
o suave toque
dos lábios dele
nos seus, mas
o frio diafragma
do estetoscópio Littman
auscultando-lhe o coração

Contos infantis em tempo de pandemia

de modo a respeitar
as regras da quarentena
a Capuchinho-Vermelho
encomendou a comida
para a avó
pela Uber Eats

mal sabia ela
que o entregador
era o Lobo Mau

Contos infantis em tempo de pandemia

para evitar
o contacto
social
Rapunzel
cortou o
cabelo

E quando ouvires a tempestade lá fora lembra-te de mim:

de como ergueste

as paredes e fechaste

as janelas que nos separam

A Natureza

A Natureza faz o seu trabalho:

encarrega-se

de crescer

e ocupar

Objectivo de vida

Ser feito um rio:
nascer
num fio

e avançar

até ser
mar

Flores

Falava-se de um homem que pintava as flores. Um homem que trazia consigo um balde de tinta e pintava as flores.
Para quê?
Por que motivo pintaria ele as flores?
Perguntaram-lhe: por que motivo pintas tu as flores?
Respondeu: estou farto da realidade; que a natureza seja o que quer.
Mas não podes mudar a realidade. Uma flor vermelha será sempre uma flor vermelha. A realidade é um acto democrático.
Uma flor vermelha é-o se eu não a pintar de azul.
Uma flor vermelha é sempre uma flor vermelha. Mesmo pintada de azul é uma flor vermelha.
O homem pegou na tinta e pintou os olhos de azul.
Perguntou: e agora?
Responderam: a flor continua vermelha.
O homem finalizou: não aos meus olhos.