O nº 11

O homem viu: cavaram-se dois buracos.

Num escondeu-se um corpo: saco anatómico desprovido de vida. No outro inauguraram-se as fundações de um prédio: caixote de betão procurando vida.

Foi assim que se ergueu o número 11. Bloco, após bloco, após bloco, após bloco, após bloco, até se cruzar com o céu; de agredir o azul com o seu corpo rectangular e cinzento.

Terminadas as obras, encheram-se as fracções com gente. 

No lugar onde o corpo havia sido enterrado cresceu uma macieira. Em torno da macieira foi criado um jardim com relva e um caminho de pedras calcárias, que desaguava na entrada do prédio onde dormia o homem. O indigente não queria abrigo, não pedia uma casa; também não pedia dinheiro – o que espantava os moradores. Limitava-se a estar ali, olhando a árvore. O porteiro – ser de massa considerável, mas estático como uma montanha – desprendia palavras de ódio, tentando expulsá-lo: não há nada tão nojento quanto uma pessoa inútil.

O homem alimentava-se das maçãs que a árvore oferecia: pequena dádiva divina.

Por baixo da terra, as raízes da árvore embrulhavam o corpo; alimentavam-se da sua morte, da sua, aparente, inutilidade. 

Dentro das casas as famílias cresciam: alimentando-se uns dos outros: dinheiro, paciência, tempo. Tudo se resume a pequenos circuitos, aparentemente fechados, mas todos ligados, na enorme engrenagem da vida. 

A inutilidade é uma condição aparente.

Abraço

Corpo rente

feito linha

tangente

(ou laço)

O universo é uma teia

Desenho: duas rectas perpendiculares.

O ponto de intercepção estava claro, mas ele reforçou-o com um círculo carregado a tinta preta.

O movimento da mão era orgânico, humano. Cada uma das rectas representava uma cronologia, uma pessoa: desde a sua concepção, até à sua memória.

O círculo preto representava o momento em que aquelas cronologias se cruzariam, se tornariam apenas uma: recta sobre recta. Assumiu esse momento como o amor: tudo o que o antecede nos conduz à convergência, tudo o que o sucede nos condena à divergência.

Depois desse ponto e até ao momento da morte efectiva, começava a memória. E depois da memória – avançando continuamente até ao infinito – restava o oblívio: a escuridão total.



Poema sobre o fim de uma relação

Toda a cidade

se construiu em volta de nós


devo agora condená-la

à ruína?

O homem e a aranha

O homem dorme. Por cima da sua cabeça, há uma aranha. Todas as noites a aranha desce da sua teia, entra pela orelha do homem, diz-lhe que o ama e, durante o processo, injecta um pouco de veneno – uma quantidade mínima, não capaz de o matar. Após esta acção o bicho regressa ao canto do quarto, onde fez casa. O homem acorda. Todos os dias se sente um pouco mais fraco, mas não liga: a vida desgasta o corpo: a erosão é um processo natural.

O homem vive sozinho. 

Mentira: o homem não vive sozinho. Há a aranha. Uma companhia insignificante, mas uma companhia.

Uma noite, a aranha desce da sua teia e resolve fazer casa no ouvido do homem. Diz-lhe isso mesmo: quero fazer casa no teu ouvido (volta a injectar um pouco de veneno: há rotinas que devem ser cumpridas).

Nessa manhã, o homem não acordou. Tinha morrido. O corpo tinha cedido aos caprichos do veneno. 

A aranha abandonou o ouvido do homem: um corpo morto não é casa para os vivos; um ouvido que não ouve é um órgão inútil: perdeu a sua função.

O homem ali ficou, deitado, abandonado à sua sorte: o veneno só serve aos vivos; o amor só serve aos vivos: depois do fim, transforma-se em memória. 

O canto do quarto está vazio: casa desocupada. 

Pensão Amor

Gostava de pernoitar

dentro do teu coração; encontrar

o conforto de um lar

onde coubéssemos eu e todos

os meus defeitos: as pernas tortas,

o tremor essencial, a minha miopia

para as coisas que se apequenam 

ao longe: a flor, as luzes da pensão

onde jurámos um dia começar 

uma vida a dois

.

Podes cobrar-me a estadia

prometo pagar-te antes de partir

Geodesia

queriam definir a palavra distância

e marcaram dois pontos numa folha:

.                                                       .

uniram-nos com uma linha recta

e disseram ser o menor espaço 

que os separava.

depois foram mais longe:

aqueles dois pontos eram

duas pessoas, 

dois amantes,

e o que os separava

era um oceano – uma 

massa imensa

de água, um

abismo líquido

– e os amantes

alheios a tudo 

isso, acenavam

um para o 

outro

sorriam

um para o

outro

tolos apaixonados

e já não era um 

oceano que os separava

era o amor que 

os unia

como uma

ponte, ou um

hífen 

ligando o 

pronome

ao verbo

758

Ouvido no autocarro,

dito por um senhor de muletas:

– A vida é assim: passa-se depressa.

702

Dito por uma senhora de meia idade:

– Os pobres é que carregam os sacos dos ricos.

O menino e o amor

O menino brincava de desenhar corações.
Eram desenhos muito pouco precisos, sem grande cuidado: corações imperfeitos; linhas sem destino, ligadas sem rigor geométrico. O menino desenhava com a mão livre, de memória (havia visto um esquema do coração humano num livro da escola), com o seu traço inocente.
Um dia, num dos corações, escreveu o nome de uma menina. Prendeu-o dentro daqueles limites, muito feliz consigo. Depois desenhou outro, do outro lado, e escreveu o seu nome. Dobrou a folha e os corações ficaram, com os nomes, um sobre o outro: cada um com as suas imperfeições, com as suas linhas infantis e os seus nomes, um sobre o outro.
Foi a primeira noção que o menino teve sobre o amor.