Retalhos de um hino cantado pelo coração quando quis fazer de ti o meu país

emoção valente,

imortal

O trabalho de Sísifo em tempo de pandemia

Tenho os dias
on repeat

loop, GIF
prisão

alguém estragou
o botão

Contos infantis em tempo de pandemia

diagnosticada com Síndrome de Estocolmo
após anos de terapia
e dando conta de um possível
fim do mundo
a Bela decidiu deixar
o Monstro

Penélope deixa um bilhete a Ulisses à porta de casa

Quando chegares, descalça-te e desinfecta as mãos.
Sabem os deuses por onde andaste.

Contos infantis em tempo de pandemia

impedida de ir ao baile
a Cinderela
vestiu o fato de treino
abriu uma boa
garrafa de vinho
e bebeu-a
sozinha
num copo de cristal

Contos infantis em tempo de pandemia

Internada numa unidade
de cuidados intensivos
a Bela Adormecida
sonhava com a
chegada do príncipe
vestido de branco

Ao acordar do
coma induzido – dias
depois – não sentiu
o suave toque
dos lábios dele
nos seus, mas
o frio diafragma
do estetoscópio Littman
auscultando-lhe o coração

Contos infantis em tempo de pandemia

de modo a respeitar
as regras da quarentena
a Capuchinho-Vermelho
encomendou a comida
para a avó
pela Uber Eats

mal sabia ela
que o entregador
era o Lobo Mau

Contos infantis em tempo de pandemia

para evitar
o contacto
social
Rapunzel
cortou o
cabelo

Os homens da minha terra

Aqui, em casa, os homens cheiram a peixe, têm olhos húmidos, mãos gretadas com odor a iodo e tripas, unhas com sarro; fumam cigarros trapezistas e contam histórias de perigos vários: de um gigante bruto que se esconde entre as espumas calmas de Julho. Os homens da minha terra choram nos funerais, apesar de terem peitos-proa – habituados a rasgar o mar em dois; e bebem bagaço, dizem palavrões, exaltam-se nos jogos de futebol. Os homens da minha terra pouco sabem de matemática, ou de outras artes que não envolvam um fio de nylon, mas são poéticos. Poemas ásperos, erodidos, como os corpos dos homens da minha terra.

A Coisa

Havia 200000 (duzentos mil) cidadãos naquele país: 100000 (cem mil) homens e 100000 (cem mil) mulheres.

A Coisa chegou: invisível, inodora, democrática, letal. 

Quando os primeiros 10 (dez) cidadãos morreram, ninguém pareceu se preocupar. Abriram-se as campas, choraram-se os corpos inanimados dentro das caixas de madeira – o habitual. Era a ordem natural das coisas: primeiro o nada, depois a vida, por último o nada, novamente. 

Quando os próximos 10 (dez) pereceram, gerou-se um burburinho. A Comunidade Médica reuniu-se: vasculharam-se os corpos antes de os enfiar em caixas metálicas e depois em caixas de madeira e depois na terra. 

Fizeram-se análises, pesquisas, escreveram-se artigos científicos: alguém descobrira a causa das mortes: era uma coisa mínima, insignificante. Nada havia a temer: a artilharia médica, os medicamentos, tratamentos, terapias eram suficientes para combater este pequeníssimo agente.

A Coisa continuou a reproduzir-se – silenciosa, escondendo-se e multiplicando-se.

Quando 50 (cinquenta) pessoas deram entrada no hospital e mais 10 (dez) morreram, vieram as câmaras, montou-se um circo: a morte é um espectáculo de luzes e cores a que os vivos gostam de assistir. 

Primeiro, criou-se um fosso. De um lado estavam os que acreditavam que a Coisa era má; do outro lado estavam os que acreditavam que a Coisa era irrelevante. No meio, e onde devia estar o bom senso, havia um vazio onde se enterravam os mortos.

Depois, vieram as notícias falsas, o sensacionalismo: onde haviam morrido 10 (dez), cabiam 100 (cem).

Depois, o Governo do País quis fechar todos. A Comunidade Médica havia descoberto que a Coisa se passava pela proximidade. As pessoas deviam afastar-se. Deviam fechar-se dentro de suas casas, e dentro de suas casas, deviam fechar-se em divisões separadas. 

Então veio o pânico. E com o pânico alguns cidadãos deixaram de ser cidadãos, tornaram-se animais, irracionais, guerreando com outros igualmente irracionais. A estupidez havia-se multiplicado mais rapidamente que a Coisa. Ao mesmo tempo que o pânico, numa igual ordem, e com consequências semelhantes, veio o desleixo. Os que não entraram em pânico continuaram a não ligar à Coisa, que se ia replicando, muito satisfeita, enquanto estes levavam as suas vidas como se nada se passasse. 

Quando se descobriu a cura para a Coisa, dos duzentos mil cidadãos sobravam cento e noventa e quatro mil. As pessoas voltaram a sair dos quartos, a abraçarem-se. Na rua gritava-se alto, cantava-se, faziam-se desfiles. Todos sorriam – alheios a que a Coisa era menos letal que a estupidez.