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E quando ouvires a tempestade lá fora lembra-te de mim:

de como ergueste

as paredes e fechaste

as janelas que nos separam

A Natureza

A Natureza faz o seu trabalho:

encarrega-se

de crescer

e ocupar

Objectivo de vida

Ser feito um rio:
nascer
num fio

e avançar

até ser
mar

Flores

Falava-se de um homem que pintava as flores. Um homem que trazia consigo um balde de tinta e pintava as flores.
Para quê?
Por que motivo pintaria ele as flores?
Perguntaram-lhe: por que motivo pintas tu as flores?
Respondeu: estou farto da realidade; que a natureza seja o que quer.
Mas não podes mudar a realidade. Uma flor vermelha será sempre uma flor vermelha. A realidade é um acto democrático.
Uma flor vermelha é-o se eu não a pintar de azul.
Uma flor vermelha é sempre uma flor vermelha. Mesmo pintada de azul é uma flor vermelha.
O homem pegou na tinta e pintou os olhos de azul.
Perguntou: e agora?
Responderam: a flor continua vermelha.
O homem finalizou: não aos meus olhos.

O Amor, segundo Madame V.

– Sabe, sr. Peterr, os nossos desejos são coisas perigosas. Falo do desejo da carne, per carnem, essa cobiça por alguém que não nos pertence, mas que desejamos a todo o custo possuir, ter, saborear, cheirar. Falo dessa força lasciva que por vezes confundimos com o amor, porque a carne é facilmente amada, o pior é olhar depois, desvendar a cortina para lá da pele, do músculo, do osso. O essencial, o etéreo. Os nossos desejos são selvagens, irracionais. A beleza é para nós uma forma de pornografia visual, uma urgência de um orgasmo, de um movimento físico, de uma contração muscular, de uma libertação. O amor é outra coisa. O amor não é a admiração da beleza da rosa; a vontade de a colher da terra e a meter num jarro a enfeitar a casa. O amor é o perceber o cheiro dela e o que isso nos desperta, nos faz sentir, um conforto como voltar a outros lugares, algo que não é físico, palpável, efémero. É ir além disso. Criar memórias, adivinhar futuros. É perceber a beleza da pétala e o porquê dos espinhos. É querer picar-se nesses espinhos, porque essa dor o faz compreender a sua função, o faz viver esse amor. Porque o amor deve ser como a vida: deve doer, deve ser eufórico, deve marcar a carne, ser ferida e cicatriz e tudo o que nem sempre é belo. Porque o amor também é feio, também destrói para construir e constrói para destruir. O desejo não. O desejo faz festas na carne, culmina com o prazer e depois segue o seu caminho. É uma brisa suave. Mas eu não creio que seja isso que queremos. Nós queremos a tempestade, os ventos fortes que abanem tudo por dentro, que nos tirem tudo do sítio, que remexam as areias, que arredondem as esquinas, que nos levantem os telhados. Estou errada, sr. Peterr?

Abraço

Corpo rente

feito linha

tangente

(ou laço)

Na mesa do café

Na mesa do café eu teimava em olhar o jeito fugidio com que contavas as pedras da calçada. O asfalto líquido arrefecia na chávena até encontrar o equilíbrio térmico com o nosso amor condenado. Falaste em rotina; eu falei noutra coisa qualquer: uma nuvem em forma de gato, viste? (Claro que não. Estavas demasiado ocupada a chorar todas as lágrimas.) Não sei o que se passou entre nós. Alguém deve ter cortado a linha e as palavras acabavam por cair no oblívio. Repetiste a palavra rotina (como quem grita perigo até chegar aos ouvidos certos), mas eu ainda pensava na nuvem e no gato e no jeito que me dava que o amor tivesse sete ou nove fôlegos e não morresse de hipotermia só porque escolhemos olhar para cima, em vez de olharmos em frente.

S/ Título

Dentro da minha cabeça tudo parece mais poético, mais artístico. Parece que quando as palavras saem, e apanham ar, oxidam, como o ferro escarnado em paredes antigas. Soo muito melhor debaixo da pele, dentro do perímetro craniano. Cá fora tudo se atropela, tudo parece gasto. Era óptimo que as palavras jorrassem para fora do corpo como o sangue quando cortamos uma artéria. Seria um belo e infeliz destino para as palavras: jorrarem do corpo como sangue. Mas é talvez isso que elas sejam: sangue. Algo que corre por dentro num circuito fechado. Talvez.

Este livro vai mudar a tua vida

Sinceramente? Irritam-me aquelas pessoas que alegam o meu livro vai mudar a tua vida. Um livro muda nada. Contra mim falo. Um livro é um terreno fértil; um terreno com possibilidade de cultivo. As palavras podem funcionar como ignição, mas nunca serão o movimento. Ler a palavra fazer e fazer, de facto, são coisas muito diferentes. Imaginemos um punhado de sementes: se não as cultivarmos, e regarmos e deixarmos o tempo actuar, serão apenas sementes. Um livro pode ser uma semente, mas nunca será a planta, o produto final. Ler um livro, ver um filme, olhar longamente um quadro, muda nada. Poderá ser a ignição, mas nunca o fogo. Fundamentalmente, a arte é (deve ser), realmente, a faísca. O resto cabe a cada um. É um exercício interior e posterior à percepção. Penso nisto, também, – e noutra forma – como penso na minha camisa amarela: adoro o amarelo, mas não é a minha cor favorita; nem a que se enquadra melhor no meu tom de pele: um livro pode ser inconsequente, também, porque não o percebi, ou não me fascinou. Essa alegação de vai mudar a tua vida é apenas uma forma capciosa de enganar o leitor: uma aranha a atrair a mosca para a sua teia. 

Dislexia

Tive uma professora de biologia, no secundário, que me dizia que só as pessoas inteligentes sofriam de dislexia. Ela era disléxica.

Isto causou-me uma certa confusão: seria aquele um fenómeno biológico comprovado? Ou estaria ela a usar a dislexia como credibilização das suas capacidades cognitivas?

Ainda hoje me sinto atormentado com esta situação.