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O Amor, segundo Madame V.

– Sabe, sr. Peterr, os nossos desejos são coisas perigosas. Falo do desejo da carne, per carnem, essa cobiça por alguém que não nos pertence, mas que desejamos a todo o custo possuir, ter, saborear, cheirar. Falo dessa força lasciva que por vezes confundimos com o amor, porque a carne é facilmente amada, o pior é olhar depois, desvendar a cortina para lá da pele, do músculo, do osso. O essencial, o etéreo. Os nossos desejos são selvagens, irracionais. A beleza é para nós uma forma de pornografia visual, uma urgência de um orgasmo, de um movimento físico, de uma contração muscular, de uma libertação. O amor é outra coisa. O amor não é a admiração da beleza da rosa; a vontade de a colher da terra e a meter num jarro a enfeitar a casa. O amor é o perceber o cheiro dela e o que isso nos desperta, nos faz sentir, um conforto como voltar a outros lugares, algo que não é físico, palpável, efémero. É ir além disso. Criar memórias, adivinhar futuros. É perceber a beleza da pétala e o porquê dos espinhos. É querer picar-se nesses espinhos, porque essa dor o faz compreender a sua função, o faz viver esse amor. Porque o amor deve ser como a vida: deve doer, deve ser eufórico, deve marcar a carne, ser ferida e cicatriz e tudo o que nem sempre é belo. Porque o amor também é feio, também destrói para construir e constrói para destruir. O desejo não. O desejo faz festas na carne, culmina com o prazer e depois segue o seu caminho. É uma brisa suave. Mas eu não creio que seja isso que queremos. Nós queremos a tempestade, os ventos fortes que abanem tudo por dentro, que nos tirem tudo do sítio, que remexam as areias, que arredondem as esquinas, que nos levantem os telhados. Estou errada, sr. Peterr?

Abraço

Corpo rente

feito linha

tangente

(ou laço)

Na mesa do café

Na mesa do café eu teimava em olhar o jeito fugidio com que contavas as pedras da calçada. O asfalto líquido arrefecia na chávena até encontrar o equilíbrio térmico com o nosso amor condenado. Falaste em rotina; eu falei noutra coisa qualquer: uma nuvem em forma de gato, viste? (Claro que não. Estavas demasiado ocupada a chorar todas as lágrimas.) Não sei o que se passou entre nós. Alguém deve ter cortado a linha e as palavras acabavam por cair no oblívio. Repetiste a palavra rotina (como quem grita perigo até chegar aos ouvidos certos), mas eu ainda pensava na nuvem e no gato e no jeito que me dava que o amor tivesse sete ou nove fôlegos e não morresse de hipotermia só porque escolhemos olhar para cima, em vez de olharmos em frente.

S/ Título

Dentro da minha cabeça tudo parece mais poético, mais artístico. Parece que quando as palavras saem, e apanham ar, oxidam, como o ferro escarnado em paredes antigas. Soo muito melhor debaixo da pele, dentro do perímetro craniano. Cá fora tudo se atropela, tudo parece gasto. Era óptimo que as palavras jorrassem para fora do corpo como o sangue quando cortamos uma artéria. Seria um belo e infeliz destino para as palavras: jorrarem do corpo como sangue. Mas é talvez isso que elas sejam: sangue. Algo que corre por dentro num circuito fechado. Talvez.

Dislexia

Tive uma professora de biologia, no secundário, que me dizia que só as pessoas inteligentes sofriam de dislexia. Ela era disléxica.

Isto causou-me uma certa confusão: seria aquele um fenómeno biológico comprovado? Ou estaria ela a usar a dislexia como credibilização das suas capacidades cognitivas?

Ainda hoje me sinto atormentado com esta situação. 

Sonhos


Às vezes, mais vale não mexer nos sonhos, para não os estragar. Deixá-los na prateleira, junto aos bibelôs da casa dos nossos avós. Eles sempre nos alertavam que não lhes tocássemos, com as nossas mãos infantis e descuidadas, porque não eram brinquedo e se podiam partir. E assim ficávamos, a contemplar os bibelôs e a sonhar com as histórias de cada um: de onde viriam, para onde iriam, depois. Pelo menos, eu sonhava. Acho que ainda sonho.

Sou uma pessoa de gostos simples

sou uma pessoa de gostos simples

a complexidade ocupa muito tempo

e a vida não dura assim tanto

tudo o que quero

é uma frase num muro

antes de ele ser derrubado

antes de se erguerem novos bairros

um ou outro amor no bolso

para me aquecer nas noites frias

uma garrafa de água

para matar a sede

pão para não morrer 

à fome

quero um deus

a quem possa atirar culpas

e uma pedra no sapato

para parar de vez em quando

e contemplar o pôr-do-sol

isto é talvez o mais importante:

o pôr-do-sol, 

o relembrar que os elementos

apesar de próximos

têm uma natural dificuldade

em se misturar

Sem título

Estava um dia muito parecido com o de hoje. Pela janela aberta, acima da minha cabeça, entrava uma massa de ar quente. O céu azulava-se a espaços, entre as nuvens altas de um tom acinzentado. Apenas se ouvia o bichanar da vassoura a varrer a fuligem e a areia dos terraços, a torneira a pingar para o balde preto. Sei que estava a ler, mas não me recordo o quê – um livro qualquer da minha biblioteca, certamente. Perpetuava-se a normalidade excessiva de um dia de verão; a calma. E então o som oco de um corpo a bater contra outro: a anatomia humana – ossos, músculos e tudo o resto – a chocar contra a pedra fria das escadas. Quatro degraus; uma distância relativamente pequena, uma altura que não chega a causar vertigens. Levantei-me, num salto. O livro voou por cima de mim, num movimento parabólico de projéctil, aterrando sobre a almofada do sofá. Ao passar a portada que dá para o terraço vi a minha mãe estendida, a respirar muito aflita, como quem vem à tona depois de um longo mergulho no mar; as costas contra os degraus, marcadas na zona do impacto. Ajudei-a a levantar-se. E enquanto o fazia pensava em como uma queda tão pequena, de uma altura tão insignificante, pode matar uma pessoa. Apenas um segundo em que o atrito entre os pés e o chão se quebra e ficamos condenados ao vazio que antecede a inevitável colisão. Nem todas as quedas nos matam, mas desde esse dia que olho para aqueles quatro degraus, aquele pequeno desnível, com um outro respeito. 

Lx

As ruas ainda guardam o teu nome

o teu rosto continua a brilhar intermitente

como os néons perdidos pelas fachadas

nas montras o reflexo de outros tempos,

as esquinas de outros beijos

(ainda os sentes nos lábios, também?)

Toda a cidade se construiu em volta de nós

devo agora condená-la à ruína? 

é Inverno e o céu gelado teima

em cair sobre as nossas cabeças

sigo o meu caminho, o mesmo 

itinerário de sempre, os mesmos

passos apressados de sempre

Tento atravessar a rua para chegar 

aonde me esperam, mas o semáforo 

teima em ficar vermelho

-Tenho a vida parada, suspiro

E então olho em volta, à procura

de respostas, à procura de algo

concreto: meia dúzia de luzes

acesas em meia dúzia de

apartamentos diferentes

o homem das castanhas

um carro a roçar o limite

de velocidade

o velho do café a esbracejar

Tudo isto em trinta e tal segundos

até o semáforo mudar de cor:

está verde,

é altura de avançar.